A MAIOR DEFESA DE TIM HOWARD NÃO FOI NA COPA DO MUNDO

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As defesas de Howard na Copa do Mundo de 2014 foram objeto de diversas matérias em todos os órgãos de imprensa mudo afora

Ser um jogador de futebol famoso é o sonho da maioria dos garotos que hoje treinam em alguma escolinha da modalidade ou nas quadras espalhadas por todo o mundo.  Já quando se pergunta para qualquer um destes meninos: – Quem são seus ídolos? A resposta está na ponta da língua: Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo e por aí vai. Difícil é achar alguém que lembre de nomes como Rogério Ceni, ‘São Marcos’, Valdir Peres, Marola, Manga…apesar da semântica de que um grande time se começa por um bom camisa 1. Aliás, esta posição dentro do campo sempre foi tida como a mais ingrata, no entanto, é responsável por revelar grandes atletas e salvar campeonatos inteiros.

Não importa o esporte que você escolheu para praticar, seja ele qual for, requer uma preparação física e mental, mesmo que sua dedicação seja apenas por hobby. Os esportes em geral proporcionam um benefício incrível a quem quer que pratique. Eles possuem a capacidade de gerar um comportamento mais disciplinado, senso de coletividade e respeito pelo próximo sem que se perca os atributos de competitividade, essenciais em qualquer modalidade.  Também é possível não só quebrar recordes, mas antes de tudo conhecer nossos próprios limites, sobretudo quando corpo e mente trabalham juntos.

Quem conhece de perto um centro de treinamento esportivo de alto rendimento, automaticamente imagina atletas extremamente focados, disciplinados, com físicos invejáveis e disposição de sobra. Porém, quando alguém que possui alguma limitação, seja ela qual for, quer se dedicar a determinado esporte, a barreira do preconceito se ergue e desperta um certo menosprezo de quem observa. Alguns até são subestimados e tidos como ‘inúteis’ para diversas modalidades. Ainda bem que em contrapartida, isto pode servir como incentivo para quem sofre com estes rótulos absurdos, os tornando mais esforçados na busca incessante pela superação, reconhecimento e respeito. Já está mais do que provado: a mudança em nosso estado mental pode levar nossos propósitos a patamares incríveis.

Diversos são os casos de pessoas comuns, artistas, empresários e atletas que sofrem com algum transtorno neurológico, mas que lutam diariamente para levar seus sonhos adiante e assegurar que suas capacidades cognitivas não os impeçam. Neste sentido, temos um grande exemplo de superação, o veterano goleiro da seleção americana de futebol Tim Howard, de 38 anos, que você, amante do futebol já deve ter ouvido falar.

Tim Howard é goleiro da seleção norte-americana de futebol desde 2002; Síndrome de Tourette foi diagnosticada aos 10 anos de idade

Timothy Matthew Howard nasceu no dia 6 de março de 1979 em North Brunswick Township (Nova Jersey), Estados Unidos, e desde garoto já gostava de jogar nos campos de terra da cidade sempre posicionado debaixo dos chamados ‘três paus’. Filho de uma imigrante búlgara e de um motorista de caminhão afro-americano, Howard não desfrutou da infância na companhia dos pais, que se separaram quando tinha 3 anos de idade.

Sua mãe Esther, notou com o passar dos anos que o comportamento do jovem Tim era diferente quando, por exemplo, se vestia:  – “Havia rotinas e padrões a serem seguidos. Ele tinha de vestir as roupas na mesma sequência todos os dias”, revelou em recente entrevista. Neste momento, percebeu que seu filho precisava de ajuda médica e então recebeu como diagnóstico: Síndrome de Tourette.

SÍNDROME DE TOURETTE: SINTOMAS E TRATAMENTO

Este transtorno neurológico, se caracteriza por tiques, movimentos involuntários de ordem motora ou vocal, geralmente acometem músculos faciais. No caso do goleiro da seleção americana, os mais evidentes são a gagueira, piscadas constantes e contrações musculares por todo o rosto. A intensidade desses sinais varia e podem também estar associados a outros tipos de males como o TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo – e o TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. No entanto, as causas ainda são desconhecidas da ciência, que considera fatores hereditários para o despertar da doença.

Assim como Howard, a maioria dos pacientes apresentam sintomas como o piscar de olhos incessante, franzir a testa, espasmos musculares na face, entre outros movimentos involuntários. Os tiques vocais como tossir ou limpar a garganta a todo momento, provocando a emissão parcial de palavras, também é normal.

A síndrome não tem cura, mas pode ser totalmente controlada e amenizada, através de terapia cognitiva, na qual a pessoa monitora as sensações de tiques, na busca por conhecer onde e quando estes espasmos ocorrem e com qual frequência, para assim ficar mais consciente de sua condição e desenvolver mecanismos para combater os espasmos.  Alguns medicamentos antipsicóticos também vêm demonstrando bons resultados. Porém, grande parte dos médicos indicam que, ao perceber precocemente a apresentação dos sintomas, é preciso estar muito presente na vida dos portadores, buscar ajuda médica e jamais usar da repreensão.

EXEMPLO DE SUPERAÇÃO, HOWARD JÁ FOI MOTIVO DE CHACOTA

Em uma de suas entrevistas, o astro da seleção disse que até os 15 anos a sua convivência com a doença foi bastante difícil. “Foi um verdadeiro caos de tiques diferentes. Eles eram bem fortes”. Em uma de suas tentativas para amenizar estes sintomas, Howard começou a ingerir muita quantidade de café, mas logo percebeu que só piorava a situação. Também declarou que não faz uso de medicamentos pois tem medo que os mesmos prejudiquem seus reflexos durante as partidas e o comprometa com exames antidoping.

“Não escondo de ninguém o que tenho. Acontece o tempo todo, sem aviso prévio e fica ainda mais evidente quando estou às vésperas de um jogo muito importante, porém, prefiro exercitar minha memória e mantê-la ativa com os meus treinamentos do que tomar remédios todos os dias”.

Em 2003, o goleiro aceitou uma oferta do gigante Manchester United, da Inglaterra, para atuar na badalada e cobiçada Premier League. Ciente do problema de Howard, jornais ingleses, em especial o Guardian noticiou que o United havia contratado um arqueiro  ‘com problemas mentais’. Alguns outros meios de comunicação chegaram a usar o termo ‘retardado’ para identificar o atleta.

Pouco utilizado pelo clube inglês, acabou sendo emprestado a outro time da liga inglesa, o Everton. Nesta transação, a imprensa relatou que o negócio estava sendo feito porque Howard não conseguir controlar os sintomas da doença.

Mesmo com toda essa turbulência e preconceito foi neste outro time que Howard viveu seus grandes momentos como jogador, ganhou fama na cidade de Liverpool e hoje é um dos ídolos do clube.

Algumas atitudes, fazem de Tim Howard um atleta especial de verdade pois é nítida sua capacidade de superação e concentração no que faz. Ele também dedicou boa parte de sua juventude ao basquete, por ser alto e fazer boas partidas na posição de pivô. Sua paixão pelo esporte foi declarada recentemente quando fez um anúncio de que seria membro honorário dos Harlem Globetrotters, equipe que reúne talentos do basquete americano e que viaja o mundo demonstrando malabarismos com a “bola laranja”.

O RECONHECIMENTO DE UM PAÍS: PAREDÃO AMERICANO NA COPA DE 2014

Todos estes anos dedicados ao futebol e aos clubes por onde passou serviram para que Howard ganhasse mais admiração, mas foi na copa de 2014, realizada no Brasil, que o goleiro viveu, vamos dizer, o seu momento especial.

Os Estados Unidos nunca foram campeões mundiais de futebol, mas suas campanhas e seus times que marcaram história, como o de 1994, sempre deram muito trabalho aos adversários, protagonizando inclusive partidas épicas. Uma delas foi nas oitavas de final contra a Bélgica. A tão comentada geração belga disparou nada mais nada menos que 38 chutes ao gol do americano. Foram 16 defesas, maior número que um goleiro atingiu em uma única partida na história das Copas. Mesmo com a derrota por 2 a 1 na prorrogação, a equipe saiu de cabeça erguida e o grande nome do jogo foi Tim Howard.

Todos que no passado duvidavam da capacidade do atleta, agora o aplaudiam. Logo após o jogo até Barack Obama, fez questão de ligar para o goleiro, que, ainda nos vestiários, recebeu as congratulações pela gigantesca atuação. Os memes logo começaram a aparecer por toda a rede e até hoje é lembrado como o paredão americano.

Os sintomas que antes eram motivo de preocupação, hoje já são encarados com normalidade pelo goleirão que diz estar bastante habituado com sua condição pois adquiriu consciência de como conviver com a síndrome. “O foco deve estar acima de tudo. Quando calço minhas luvas, sei que os tiques nervosos estarão ali, na minha face, para todos perceberem, mas sei também que estou ali para desempenhar aquilo que treino todos os dias. Minha mente está concentrada, nada mais em volta pode me atrapalhar. Pelo visto tem dado certo”.