UMA MENTE SOB ATAQUE: A BATALHA CEREBRAL DE ELYN SAKS

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Elyn Saks é professora de Direito da Universidade do Sul da Califórnia e escreveu o livro “The Center Cannot Hold: My Journey Through Madness” para contar sua batalha diária contra a Esquizofrenia

Estudos mostram que os primeiros cinco anos dos sintomas da Esquizofrenia são, na maioria dos casos, severos e irão influenciar no prognóstico do paciente ao longo de sua vida. No entanto, quanto mais cedo iniciar o tratamento adequado maiores são as chances de a pessoa recuperar gradativamente suas capacidades cognitivas e não adoecer por completo.

Os quadros são os mais variados possíveis e revelam que alguns desenvolvem os sintomas positivos (delírios e alucinações) ainda na infância, mesmo que moderadamente. Poucas pessoas sabem, e alucinam que essa doença está ligada à velhice, mas a maioria dos acometidos  por esse mal têm seu estado crítico entre 25 e 30 anos, quando os problemas com a memória, concentração, atenção e capacidade de executar tarefas simples do dia a dia, são mais exigidas e portanto, afetadas. Outro fator que pode desencadear precocemente a Esquizofrenia são traumas emocionais e a utilização de drogas.

Nesse momento é fundamental a pessoa ter consciência de que esse período – que dura em média 5 anos – é passageiro e que poderá, progressivamente, recuperar suas habilidades cerebrais, claro, se tiver um estímulo para isso.

Muitas pessoas nos dias atuais reclamam que não conseguem se concentrar em apenas uma tarefa, se dispersam com muita facilidade e culpam as distrações, por não desempenharem um papel satisfatório no ambiente de trabalho ou em casa quando desejam estudar para algum concurso público, por exemplo. Agora, imagine uma pessoa que suportou por anos ataques críticos de esquizofrenia, venceu, se tornou doutora em Ciências Comportamentais, ministra aulas em universidades e ainda é autora de sete livros sobre os direitos legais de quem sofre com doenças mentais. Trata-se da americana Elyn Saks.

Em uma das palestras que costuma ministrar nas universidades americanas, Elyn relatou com riqueza de detalhes sua jornada na luta contra a Esquizofrenia e o quanto se esforça para manter sua mente ativa e atual. Todas as variações neurofuncionais que a doença traz devem ser tratadas com as devidas intervenções: medicamentos, terapias, ambiente familiar engajado e manutenção de uma mente sempre ativa.

Separamos alguns trechos das palestras de Elyn em 2012 que revela inúmeras passagens tristes da advogada, mas também demonstram uma superação diária para manter a memória viva.

“Em uma de minhas visitas ao médico, meu analista, Dr. White, me comunicou que ia fechar o consultório e mudar-se de cidade. Neste momento fiquei arrasada. Meu melhor amigo Steve, advogado e psicólogo, se mudou para New Haven para ficar comigo. Certo dia, Steve me contou que naquele período fiquei por quase uma semana sem me alimentar. Estava esquelética e meu rosto parecia uma máscara, não se movia. As cortinas do apartamento todas fechadas, uma escuridão total. Tudo ali era uma confusão. Steve me disse que eu estava muito mal naquele dia. Só disse um ´´oi´´ e voltei para o sofá”.

Elyn também entrou em alguns detalhes importantes do dia em que recebeu o diagnóstico da Esquizofrenia: “Após demonstrar os primeiros sintomas da doença fiquei em hospitais psiquiátricos por três vezes, mas em longos períodos. Os médicos me diagnosticaram como um caso grave, ou seja, na melhor das hipóteses era para eu viver sob extremos cuidados e não ter um trabalho como qualquer outra pessoa. Disseram também para eu abandonar a faculdade de Direito já que eu não teria sucesso profissional. Decidi que não seguiria todos as anotações daquele prognóstico”.

Após essas passagens Elyn resolveu que se dedicaria ainda mais aos estudos para tentar afugentar os efeitos da doença. Conseguiu se formar, tornou-se professora de Direito, Psicologia e Psiquiatria. Para compreender melhor como Elyn conseguiu e consegue, ainda hoje, manter uma mente concentrada mesmo sob efeitos de uma doença neurológica, é necessário entender um pouco desse mal que assola milhões de pessoas no Brasil e no mundo.

Em resumo, a Esquizofrenia é uma enfermidade que acomete seriamente o cérebro, deixando o paciente completamente sem noção da realidade, fazendo com que ele tenha ilusões e delírios, tudo isso acordado. “Certa vez tive a ilusão de que havia matado milhares de pessoas em meus pensamentos. Em outro dia me virei e vi um homem com uma faca na mão. É como ter um pesadelo estando acordado”, Contou Elyn.

Ao contrário do que todos pensam, aliás, do que muitos pregam como definitivo e aí entra a questão do preconceito e isolamento, a Esquizofrenia não é caracterizada por criar uma múltipla identidade no doente. A mente de um esquizofrênico torna-se despedaçada e o trabalho incessante do portador é manter estas partes unidas para que o processo de regeneração cognitiva não se interrompa nem por um minuto sequer.

Elyn na Brown University, Estados Unidos, em uma de suas palestras sobre a luta diária contra a esquizofrenia (Março/2017

Um exemplo: Você já deve ter visto algumas vezes um morador de rua, certo? A maioria deles pode estar todo desarrumado, cabelo revirado e falando sozinho pelas ruas, às vezes gritando. É provável que esta pessoa possua algum tipo de esquizofrenia, no entanto, nos momentos de lucidez ela pode desenvolver qualquer atividade. A diferença é que estas pessoas que não têm um lar, um contato familiar constante, nenhum tipo de cuidado ou acompanhamento médico (diagnóstico apropriado), não se esforçam para manter a mente ativa e não a exercitam como deveriam, abrindo espaço para os ataques cada vez mais freqüentes da doença.

Esta mudança de mindset deve ser levada muito a sério, porém, é necessário o apoio dos familiares, amigos e de quem mais estiver por perto. O estímulo externo funciona como combustível para que a pessoa procure melhorar sempre sua condição mental e assim ter um desempenho mais próximo da realidade e de suas potencialidades. A mente humana não para de trabalhar, mesmo quando está sob ataques que obstruem os caminhos para a execução de qualquer trabalho, seja em casa ou em um ambiente acadêmico, como é o caso de Elyn Saks.

Você confiaria em uma professora se soubesse que ela sofre de Esquizofrenia? Essa também é uma questão que muitos pensariam bastante para responder. O preconceito é algo presente quando o assunto é a convivência com pacientes esquizofrênicos. Muitos criminalizam a doença. Fato é que a maioria dos portadores não contam com o apoio necessário para buscar uma evolução da memória e conseguir manter a sanidade, ou mesmo o respeito e a dignidade.

O discurso que Elyn prega em suas palestras ou até mesmo nos corredores onde trabalha é que os investimentos em pesquisas para conhecer mais sobre a Esquizofrenia estão estagnados. “Quanto melhor entendermos esta doença, melhores serão os tratamentos oferecidos”.

Portanto, mesmo fazendo uso de medicamentos antipsicóticos ou terapias avançadas, o esquizofrênico acima de tudo deve reconhecer que está na mira da doença e pode, diariamente, elevar o nível de compreensão de sua mente através de técnicas que auxiliam na manutenção da atividade cerebral, ou seja, proporcionar um mínimo de desafios para que seu cérebro sinta-se ocupado na eterna busca humana da sanidade.